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Historiador Leandro Karnal durante palestra ministrada a empregados da DataprevEm palestra para os empregados da Dataprev, na última quarta-feira (3), o historiador Leandro Karnal salientou a importância da ética em um mundo cada vez mais dependente da tecnologia e fundado, em sua avaliação,  na dissolução de fronteiras,  no individualismo, no relativismo de valores e na incerteza.

"A vida sem ética é tenebrosa. E, sem o pressuposto ético, a sociedade corre o risco de colapso",  disse o historiador, para quem a velocidade da transformação do mundo provocou a perda das referências.

"Perdemos a noção do certo e errado. Antes, se um aluno fosse apanhado colando em uma  prova, ficava envergonhado. Hoje, responde que a cola é seu método de estudo", exemplificou o professor Karnal, para quem palavras como "licença", "por favor" e "obrigado" estão desaparecendo no momento em que são mais  importantes como regras de etiqueta, de convivência, consideradas por ele o primeiro passo para o resgate da ética.

Apesar da perda de referência e do vertiginoso ritmo da mudança do mundo ter tornado os mais velhos portadores de qualificações "inúteis", como a de datilógrafo, por exemplo,  Karnal acredita que os valores éticos seguem sendo fundamentais. E tem um argumento infalível em defesa da ética na vida pessoal e no trabalho:

"Só ela impede que o inferno se instale", sentencia ele.

O palestrante, que é professor de História da América na Unicamp,  também reafirmou a sua crença de que a ética é quem possibilita que as pessoas se vejam e sejam vistas. Daí, acreditar que o legado ético deva ser ensinado desde cedo. "Ninguém nasce com ela, mas pode adquiri-la e aperfeiçoá-la", lembrou o historiador,  citando o filósofo grego Aristóteles, que nasceu em 384 a.C, para reafirmar que a virtude, a exemplo da ética,  se adquire pelo hábito.

O século XX  marcou o fim das certezas sólidas e das utopias, avalia Karnal.  Ele lembrou a frase do filósofo e sociólogo alemão Karl Marx, de que tudo que é sólido desmancha no ar, para marcar o início do que qualifica de mundo líquido e lembrar a importância da utopia:

"A utopia é necessária por ser a correção do mundo real e um importante vetor de mudanças".

O historiador também falou sobre o desconforto da mudança e sobre a importância dos momentos de crise para a reflexão. A chamada zona de conforto, por exemplo,  é uma armadilha e pode ser um grande obstáculo ao crescimento, acredita ele.

Leandro Karnal encerrou a sua palestra convidando a todos a investigar as suas zonas de conforto como primeiro passo para estabelecer o que deve permanecer e o que deve ser banido para sempre de suas vidas.

Graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul,  e doutor pela Universidade de São Paulo (USP),  Leandro Karnal escreve livros,  leciona há 30 anos e ainda encontra tempo para se dedicar ao trabalho com  capacitações para professores da rede pública e publicação de material didático e de apoio para os mesmos.

Entre os livros publicados, estão “Estados Unidos: a formação da nação”, “As religiões que o mundo esqueceu“(co-autor), “O historiador e suas fontes”(co-autor), “Conversas com um jovem professor” e “Pecar e perdoar”.